Universidade Federal de Pernambuco
- UFPE
Centro de Filosofia e Ciências
Humanas - CFCH
Departamento de Ciências Sociais
Luciano Souza Medrado.
O
Homem Metropolitano em Georg Simmel.
Em
“A metrópole e a vida mental” (1902) Simmel afirma que “os problemas mais
graves da vida moderna derivam da reivindicação que faz o indivíduo de
preservar a autonomia e a individualidade de sua existência em face das
esmagadoras forças sociais, da herança histórica, da cultura externa e da
técnica de vida”. A partir desta afirmação inicial, Simmel vai nos
mostrar como os indivíduos se preservam psicologicamente diante da
imensurável quantidade de estímulos que a vida metropolitana proporciona aos
que dela gozam.
Marcada
pela impessoalidade a metrópole apresenta o espaço urbano como aquele que
proporciona maior liberdade para o individuo que pode se expressar nas
mais diferentes faces de sua identidade, com maior liberdade, em virtude do
menor controle social, que em geral são realizados por pequenos grupos como em
cidades de pequeno porte, ou seja, “o ritmo e a multiplicidade da vida
econômica, ocupacional e social, a cidade faz um contraste profundo com a vida
de cidade pequena e a vida rural no que se refere aos fundamentos sensoriais da
vida psíquica” (SIMMEL, 1902 in VELHO 1979, 12), conclui o autor.
Em
decorrência dos excessos de estímulos contratantes impostos aos nervos, sendo
“a base psicológica do tipo metropolitano de individualidade constituída na
intensificação dos estímulos nervosos” (SIMMEL, 1902 in VELHO 1979, 12), o
indivíduo desenvolve uma atitude blasé (indiferença), ou seja, uma recusa a
reagir a esses estímulos, sendo esta a sua forma de acomodar-se ao conteúdo e a
forma da vida metropolitana.
Para
o autor em estudo, o tipo de homem ideal para a vida em uma metrópole precisa
desenvolver um órgão para protegê-lo “das correntes e discrepâncias ameaçadoras
de sua ambientação externa, as quais, do contrário, o desenraizariam” (SIMMEL,
1902) e para o autor o órgão seria o cérebro. Desta forma, a vida em uma metrópole
implica em uma consciência elevada e uma predominância da inteligência sobre as
emoções. Desta forma, a intelectualidade serve para preservar a vida subjetiva
contra o poder descomunal da vida em metrópole em que o homem está inserido.
O
homem que vive em grandes cidades vive em um estado de resistência para manter
sua subjetividade, autonomia e individualidade. A metrópole devido a sua vida
frenética faz com que o indivíduo reaja menos emocionalmente e mais com a
inteligência, sendo esta uma atitude de reserva, frente aos estímulos da
metrópole.
Da
leitura atenta compreende-se que essa atitude é um dos dois extremos do
comportamento do homem metropolitano atingido diretamente pela vida moderna, no
qual a pessoa mergulha em sua própria subjetividade sem se envolver quase que
praticamente com o meio externo.
Desta
atitude de reserva nasce o distanciamento do homem metropolitano com os seus
pares por meio de uma atitude de desconfiança, e por isso, “a mente moderna se
torna mais e mais calculista” (SIMMEL, 1902 in VELHO 1979, 14). Por meio da
atitude de reserva o homem metropolitano será confundido com frequência com uma
pessoa fria e antipática em seus relacionamentos. Entretanto esta atitude
desemboca em uma outra, a solidão como marca da vida na metrópole.
Decerto
é apenas o reverso dessa liberdade se, sob certas circunstâncias, em nenhum
lugar alguém se sente tão solitário e abandonado como precisamente na multidão
da cidade grande; pois aqui, como sempre, não é de modo algum necessário que a
liberdade do ser humano se reflita em sua vida sentimental como um sentir-se
bem. (SIMMEL, 2005 [1903]. p. 585)
Da
perspectiva de Simmel, a solidão e o abandono seriam o preço que a liberdade
cobraria dos cidadãos pela vida nas metrópoles levando-o ao anonimato. É dele a
afirmação do exposto acima quando diz que “a pessoa em nenhum lugar se sente
tão solitária e perdida quanto na multidão metropolitana” (SIMMEL, 1902 in
VELHO 1979, 20).
Outra particularidade da metrópole mergulhada
no sistema capitalista e apontada por Simmel é a gama de ofertas e serviços que
a metrópole dispensa àqueles que fazem uso dela. Para o autor, a relação do
homem metropolitano com o dinheiro faz com que o mesmo desenvolva uma relação
objeta e de distanciamento com as outras pessoas. Para Simmel, o dinheiro é o indicador
de realizações espirituais da época moderna porque cria condições para
dinamizar a própria modernidade como é o caso da velocidade, mobilidade e
racionalidade em detrimento a atitudes emocionais.
REFERÊNCIA
SIMMEL,
G., A Metrópole e a Vida Mental, in VELHO,
Otávio Guilherme (org.), O Fenômeno Urbano, 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1979.
SIMMEL,
Georg. As grandes cidades e a vida do espirito. Mana, Rio de Janeiro, v. 11, n.
2, 2005. (trad. Leopoldo Waizbort). Disponivel em:
. Acesso em: 25 de dezembro
de 2013.
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