A (DES)CONSTRUÇÃO BRASILEIRA

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ed. 20 reimp. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1995.


Por Luciano Medrado


Sérgio Buarque de Holanda, nascido em São Paulo em 11 de julho de 1902, foi um dos que bem mais tentou explicar o Brasil, alguém que, por meio de uma respeitável obra, procurou tornar o país mais inteligível aos próprios brasileiros. Seu interesse oscilou entre a literatura e a história, sempre abordadas pelo viés da sociologia, especialmente a da escola alemã, mais precisamente a de Max Weber. Hoje, Sérgio Buarque de Holanda, falecido em 1982, é considerado um dos mais eminentes intelectuais brasileiros do século XX.
Dado enfatizado por diversos comentadores da obra do historiador paulista Sergio Buarque de Holanda, um dos principais objetivos de “Raízes do Brasil” era delinear uma, digamos, psicologia do povo brasileiro, em algumas de suas principais matizes.
Controvertido, com um tom pouco sínico e polêmico, Sergio Buarque de Holanda conceitua, a noção de homem cordial, conceito este que merece de antemão, esclarecimentos.
Mas, onde está o cerne da noção de homem cordial? Sérgio afirma de antemão, buscando evitar compreensões errôneas: a referida “cordialidade” ou “mentalidade cordial” não se trata, necessariamente, de uma referência direta ao significado literal da expressão. Na verdade, ao referir-se à cordialidade, busca enfatizar uma característica marcante da maneira de se apresentar, o jeito de ser do brasileiro, ou seja, a dificuldade de cumprir os ritos sociais que sejam rigidamente formais e não pessoais e afetivos e de separar, a partir de uma racionalização destes espaços, o público e o privado.
Seria engano supor que a cordialidade pudesse significar boas maneiras, civilidade, bom- moço etc.; Trata-se antes de aparente gentileza e afetuosidade, sendo, efetivamente, uma cápsula protetora, uma estratégia tanto de ascensão quando de sobrevivência em sociedade.
Para compreender melhor os aspectos referentes às estratégias de ascensão social permeadas pela cordialidade é com largueza e suntuosidade, que Sergio explorará o bacharelismo acontecido aqui nestas terras “brasilis”. O bacharelismo grassava nos mais variados campos da vida social brasileira, onde raramente alguém seguia uma carreira de acordo com sua formação acadêmica. O título era uma chave, que além de servir para abrir as portas para a ascensão social, era usada largamente para compor a imagem do filho do senhor de engenho. Segundo Sérgio:

“...as atividades profissionais são, aqui, meros acidentes na vida dos indivíduos, ao oposto do que sucede entre outros povos, onde as próprias palavras que indicam semelhantes atividades podem adquirir acento quase religioso. Ainda hoje são raros, no Brasil, os médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, professores, funcionários, que se limitem a ser homens de sua profissão.”

Eis aí a caracterização do típico bacharel que ocupará cargos como funcionário público.
Um outro aspecto visto em “Raízes do Brasil” é o que ficou comumente conhecido como moral das senzalas, que consiste em uma avaliação do quanto a formação, ao longo da maior parte da História do Brasil, de uma sociedade patriarcal, rural e escravocrata foi contaminada por um sem número de vícios. São estas marcas profundas de segregação e do fortalecimento do desprezo ao trabalho manual no imaginário nacional que se convertem no dilema apontado pelo autor em sua obra. Uma vez que saem desta relação impuros, pois o mundo que criaram pela dominação também os dominou, tornando-os uma casta de inadaptados aos novos processos sociais, como o da urbanização rápida e progressiva, que acabou rendendo-lhes a imagem que os eternizou na arte, a do sinhozinho boçal que sobrevive apenas pela força dos seus jagunços e de suas sórdidas jogadas políticas.
Quando Sérgio Buarque se propõe a discutir os contrastes entre uma ética protestante e uma ética católica, mais especificamente lusitana, recorre ao livro clássico de Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, muito citado pelo docente em classe. Neste livro, o autor de “Raízes do Brasil” encontra subsídios para uma discussão em torno de um “ethos” particular do capitalismo, que não teria se inserido na colonização portuguesa. A ética protestante se peculiariza por exaltar o "trabalho" como um meio de aproximação do homem para com Deus. Além disso, a vocação para o trabalho secular é vista como expressão de amor ao próximo. O trabalho não só une os homens, como proporciona aos mesmos a certeza da concessão da graça. Diferentemente do catolicismo, para o protestantismo a única maneira aceitável de viver para Deus não está na superação da moralidade secular pela ascese monástica, mas sim no cumprimento das tarefas do século, impostas ao indivíduo pela sua posição no mundo.Logo, o efeito da Reforma, em contraste com a religião católica, foi engrandecer a ênfase moral e o prêmio religioso para com o trabalho secular e profissional. Constitui-se assim uma moral vinculada ao culto do trabalho. Este deve ser executado como um fim em si mesmo, como uma "vocação" que só pode ser encontrada através de um longo processo de Educação. O homem deve trabalhar, independentemente das condições impostas pelo tipo de serviço que executa, para ter a certeza de sua proximidade com Deus. O trabalho é visto como uma dádiva do divino.
O trabalho ocupa um lugar fundamental na ética protestante. Constitui a própria finalidade da vida. O ócio e a preguiça são encarados como um sintoma da ausência do estado de graça. O acúmulo de riquezas que não se baseasse no “ethos” de uma organização racional do capital e do trabalho não poderia se adaptar ao ideário protestante. Mesmo enriquecendo, o indivíduo não pode se sujeitar ao ócio para viver de renda ou especulação. O protestantismo lega ao trabalhador que enriquece uma responsabilidade moral que o inibe a consumir o luxo.
O papel limitado do tipo trabalhador na colonização realizada no Brasil se deve à ausência de uma moral fundada no culto ao trabalho. Este só foi devidamente valorizado quando pressupunha a ausência de esforço manual e uma recompensa imediata pelo mesmo. A vida de grande senhor, que exclui qualquer esforço ou preocupação racional, seria representativa de uma mentalidade avessa à "religião do trabalho" e à atividade utilitária. A ausência da moral do trabalho se ajustaria bem a uma reduzida capacidade de organização social. Sérgio Buarque enfatizaria essa relação, com o objetivo de compreender as deformações na implantação de determinados sistemas positivos que foram eficazes em outros contextos e que não se adequaram ao Brasil.
O contraste entre a ausência da moral do trabalho e a ética protestante fundamentada na noção de trabalho enquanto vocação, permitiram, a configuração da tipologia trabalho-aventura na obra de Sérgio Buarque. A pequena racionalização da vida, o inexpressivo ânimo para os grandes empreendimentos e o interesse por resultados imediatos constituem a principal deficiência da colonização portuguesa.
Ante a constatação da sociedade brasileira posta nestes termos, vítima de uma estrutura arcaica, que segundo Sérgio Buarque é a culpa maior de sua insuficiente modernidade, busca o autor uma saída para esta situação, vista por ele na radical ruptura com a tradição. Se o núcleo da tese de Sérgio Buarque está justamente na argumentação deste de que a maior parte dos problemas nacionais assenta-se nos resquícios senhoriais e nas antigas tradições luso-brasileiras que em grande parte ainda imperam na organização e imbricação do público e do privado.

Seria este o ideal de construção da República, a partir da idéia de que se deveria respeitar os limites entre o público e o privado, racionalizando assim as atividades administrativas da máquina burocrática. Entretanto, o fato com o qual o autor se depara em nosso País é com um enfraquecimento das formas institucionais, que não chega a separar de forma estanque, na prática, o público do privado, sendo, justamente, a esta frouxidão dos laços institucionais que se dirige sua crítica à lógica que organiza as relações entre as esferas pública e privada. Uma vez que a imbricação entre elas seja total e/ou ao menos crescente, passam a dominar as relações pessoais dando origem ao Estado de privilégios.

Sérgio Buarque entende que a nossa insuficiente modernidade, fruto da colonização lusa, uma vez que, para ele, Portugal, quando do descobrimento não havia ingressado na modernidade, gerou um atraso civilizatório que deveria ser reparado. A saída para que se repare este “mal” seria, na visão de Sérgio Buarque de Holanda, a racionalização do Estado e da vida política em geral.
Neste ponto, ainda é preciso ter cuidado, a racionalização deste Estado, como a quer Sérgio Buarque de Holanda em Nossa Revolução, último capítulo de Raízes do Brasil, deve ser cautelosa, uma vez que o autor nos previne sobre as saídas caudilhescas, tipicamente latino americanas. Estar-se-ia, assim, substituindo uma forma de personalismo político por outra. Ponderação que se entende tranqüilamente levando em conta o período em que Sérgio Buarque de Holanda escreve Raízes do Brasil: os anos 30, em meio às turbulências da subida de Vargas ao poder. Nas palavras de Buarque de Holanda, seria preciso vencer- se, definitivamente a “antítese liberalismo-caudilhismo’.

Em grande parte parece que, movido por sua estada na Alemanha e sua ligação às teorizações de mestres alemães como Max Weber, Sérgio Buarque de Holanda se frustra ao perceber o quanto o Brasil ainda era tributário de uma estrutura de fundo “sumamente arcaico”, em grande parte ainda regida pelos mesmos senhores de engenho de quatrocentos anos de história, ainda que se apresentassem em outros trajes e termos. Continuava a imperar a mesma moleza, a mesma “suavidade dengosa e açucarada”, que, segundo o autor “invade, desde cedo, todas as esferas da vida colonial”.

REFERÊNCIA de apoio para melhor fundamentar o texto:
A Tipologia da Aventura do Trabalho, artigo encontrado em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/ biblioteca/historia/hist02b.htm. acessado em 08 de setembro de 2007 às 18h49.

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