A MÍSTICA DE SÃO JOÃO DA CRUZ NUMA ABORDAGEM PSICANALISTA - PARTE II


Olá amigos leitores, espero que tenham apreciado a I parte desta postagem, fomos por meio dela convidados a perceber o caminho que temos que percorrer ao encontro do Bem maior, e poderia até nomear como harmonia e equilíbrio humanoNesta II parte vamos com João da Cruz e o Dr. Gilberto Safra da PUC-SP, desvendar os meandros por onde a alma confusa estaciona, perdendo sua condição de devir ocasionando na mesma grandes danos na busca desejosa de libertar-se do seu cárcere.
Para clarificar para nós a condição humana na qual a alma está subjulgada, vimos que João da Cruz metaforicamente utiliza a imagem de uma escrava. A alma neste mundo se encontra como uma escrava dos seus caprichos e paixões, impedida de ascender a sua condição de filha, de ser humano, de gente.
Vimos também que quando a alma fica represada nos sentidos, imaginando o bem ser as coisas criadas e aí se estanca, e uma vez tamponada se deleita nas coisas confundindo-as com o bem maior. Este tipo de relacionamento confuso, onde a alma se esbarra no criado e aí não consegue fazer a travessia é acarretada na mesma o adoecimento psíquico com seus danos.
João da Cruz aponta que neste estado a alma fica privada do encontro com o Criador, pelo modo como ela lida com as coisas criadas.
Afastada do Criador os apetites voluntários assumem o comando com toda a sua volúpia. O homem acarretado perde sua condição de transcendência gerando em si uma confusão que João da Cruz chamará de "Confusão Transicional", ou seja é o estado pelo qual a alma não conseguindo transitar e mais, trespassar, e estando estanque, identifica a beleza e a bondade, sendo estas o Bem que ela tanto almeja.
João da Cruz utiliza um exemplo bem fácil para compreendermos o aprisionamento da alma quando se encontra fetichizada, ele diz:"Tanto faz prender o pássaro com um barbante ou uma corda, ele está preso do mesmo jeito. Embora um dano seja menor do que o outro é sempre um dano ocasionando o aprisionamento, o cerceamento da alma".
A alma deseja a união com o Criador, João da Cruz diz que na união com a luz divina a alma brilha por adoção e não por essência. Somos Deus por participação e não por essência, e isso se dá por meio da nossa união , tornando-nos almas esposa. É o amor esponsal alimentado pela via sacramental que nos torna semelhantes ao Criador.
É um grande engano quando a alma humana se prende às coisas criadas. João da Cruz afirma que quando se ama um objeto a alma se faz à imagem do objeto amado, colocando-se na condição de subalterna do próprio objeto, perdendo sua beleza originária, provocando uma psicopatologia na alma.

1. Cançaço: Acreditando que o bem está nas coisas criadas, o apetite vai de objeto a objeto sem sanar a sua saciedade. O desejo ficando preso no mundo, esgota a alma causando confusão mental. Donald Winnicott, psicanalista infantil para explicar esse tipo de patologia o exemplifica com a imagem da lenha e do fogo, quanto mais o ser humano busca as coisas criadas, o homem se torna um ser insaciável, que Winnicott chamará de voracidade da alma.

2. Tormento: A pessoa que se volta buscando o bem no mundo, na imanência das coisas é uma pessoa semelhante àquela que anda com correntes. Neste estado não encontra descanço pois a alma dorme nos seus apetites. O que dá sustentação fundamental ao ser humano é a experiência de amor e não os seus apetites. A alama esgotada pelo apego as coisas criadas é constantemente atormentada.

3. Cegueira: A pessoa que vai buscar o seu bem na imanência, é como uma pessoa que caminha num campo aberto mas cheio e vapor interceptando-a de ver o sol. Para o místico o sol representa sempre a razão, se a alma humana não pode enxergar em cada coisa criada os traços do divino, ela perde o entendimento, ou seja, não consegue pensar com clareza. A razão torna as coisas inteligíveis. O ser humano só estará vigoroso quando ele se compreende como um ser de abertura. A alma apegada as coisas perde a sua transceendência, acontecendo a fratura da vontade e da memória, perdendo assim todo o seu vigor corporal. No momento em que seus desejos são sempre satisfeitos, a memória fica embotada.

4. Sujeira: A alma confusa e represada nas coisas criadas chegando a se assemelhar a elas, perde sua identidade quando cada apetite a torna manchada. João da Cruz utiliza a metáfora do tocar o piche para ilustrar essa condição da alama humana.

Nesas condições a alma perde sua condição de atravessamento e o homem torna-se um ser mutilado.Em sua condição ontológica, ele, é sempre um ser de travessia, de devir, de tornar-se de sempre acontecer, sempre aberto ao novo, caos e cosmo, construção e desconstrução, um ser de contrários. É da alma, ou seja é do seu centro que o homem acontece.

Abraço forte,
Luciano Medrado.

Um comentário:

  1. QUERIDO AMIGO LU, É COM UMA ENORME SATISFAÇAO QUE MAIS UMA VEZ TENHO O PRAZER DE LER ESTA LINDA E PROFUNDA POSTAGEM SUA,FEITA A PARTIR DE SUA REFLEXAO SOBRE OS PENSAMENTOS DE SAO JOAO DA CRUZ. BOM, O QUE DIZER DE TAMANHA PROFUNDIDADE E CLAREZA, O QUE DIZER DE TAMANHA BELEZA ACHO QUE SAO JOAO DA CRUZ ERA REALMENTE E AINDA O É UM AUTENTICO ENTENDEDOR DA ALMA HUMANA. ELE FALA COM TANTA ENFASE E COM TODO O DOMINIO, PORQUE ELE VIVENCIAVA UMA PROFUNDA EXPERIENCIA DA PESSOA DE DEUS EM SUA VIDA. AGORA VC REALMENTE FOI AO CERNE DA QUESTAO E CONSEGUIU TRANFOSRMAR A FILOSOFIA DE SAO JOAO DA CRUZ EM EXPERIENCIA DE VIDA TRAZENDO ATE NÓS MEROS SERES LIMITADOS E IMPERFEITOS UMA VISAO MENOS FORMAL, MAS DE UMA MANEIRA SIMPLES E CLARA. LU, FICOU LINDO MESMO E SO TENHO A DIZER QUE A CADA DIA ME SURPREENDO COM SUA MANEIRA DE ESCREVER E VER O MUNDO DE UMA MANEIRA CLARA E SEM FRESCURAS. VC REALMENTE É SEM MEDO DE ERRAR, ABRAÇOS DA AMIGA ENILZA.

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