O DESERTO E A ARIDEZ NA VIDA ESPIRITUAL

Podemos entender o Deserto em dois aspectos: como uma realidade física, buscada pelo homem ou como uma realidade espiritual que toca toda a vida do homem, ao qual Deus parece atrair-nos constantemente para uma forte experiência. Nós nos deteremos neste segundo Deserto, nesta segunda experiência que envolve um chamado de Deus a mergulhar na obra de solidão e luta tão característica de uma autêntica experiência de Deserto.
O deserto é uma obra de Deus, para onde Ele dirige os seus eleitos: Ose 2, 16. Podemos cair na tentação de querer entender esta rica experiência de Deus como uma punição divina, o que não corresponde a realidade, pois se Deus atrai os seus para o deserto é por desejar que mergulhem em sua intimidade. É sinal do "Amor" de Deus que atrai para si o homem para que este possa exclamar : "Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te meus olhos…", como o justo Jó (Jó 42, 5).

Os grandes homens de Deus nas escrituras experimentaram desta obra em suas vidas, uma obra de purificação e aproximação com Deus.

O deserto encerra sempre uma obra de desinstalação, uma obra de "despojamento total de si" e encontro com a Verdade. Podemos chamar esta obra de (kénosis), ou seja, um quebrantamento radical de si mesmo ou melhor despojamento de si. Kénosis é um despojamento pleno, ontológico e profundo. Esta palavra grega evoca uma ação de violência. A Obra do deserto é de violência, um chamado a lutar. O ambiente hostil do deserto pode muito refletir a ação de Deus. Apenas os corajosos devem entrar no deserto. O próprio Jesus dá o testemunho sobre os homens que serão encontrados no deserto ao falar de João Batista (Mt 11, 7__14). Não são os de roupas finas ou caniços agitados pelo vento, mas os violentos. Devemos aspirar pelo deserto com todas as nossas forças, pois lá mergulhamos no coração de Deus e na misericórdia Divina, mas sem esquecer que esta é uma obra que exige um esforço. Deus não atrai crianças para o deserto, mas homens que possam lutar, e nos atrai para que despertemos do orgulho e saiamos das garras dos nossos erros, é uma obra sempre próxima à crise.

O cristão é destinado à comunidade, à Igreja, a sociedade dos homens. Deve caminhar algum tempo pelo deserto, a fim de se preparar para a missão, para o contato com os outros. O deserto é sempre uma período onde Deus prepara os seus para torná-los fortes e tenazes para tomar posse de uma missão especial.

O Padre Pio, franciscano capuchinho, de quem sou filho espiritual, nos ensina que as almas mais queridas por Deus, são as mais provadas. Toda prova é purificação, é um acrisolamento, daí a palavra crise provir de crisol (purificação) elemento químico que purifica o ouro de suas gangas. Vejamos então o ensinamento do Padre Pio para nós que passamos por esta fase na vida espiritual:


A alma humana é o campo de batalha entre Deus e o demônio.
No tumulto das paixões e das adversidades, nosso consolo está na
esperança da inesgotável misericórdia de Deus. As trevas, que às vezes parecem escurecer o céu de sua alma, são luzes; você pode pensar que está no escuro e ter a impressão de que se encontra no meio de um matagal ardente. Como o matagal que pega fogo, forma-se uma espécie de nuvem negra à sua volta. Com o espírito confuso, parece-lhe não enxergar nada; não compreender nada. No entanto, nesse momento Deus nos fala e faz sentir sua presença em nossa alma; e ouvimos, compreendemos, amamos e estremecemos


O deserto traz em si o sinal da pobreza, da austeridade, da simplicidade mais absoluta; o sinal da total impotência do homem, que descobre sua fraqueza porque não pode subsistir no deserto e se vê obrigado a buscar seu refúgio e seu amparo em Deus.

O deserto é tentativa de progresso desnudado, destituído de todo apoio humano, na carência e na falta de todo sustento terreno, inclusive o espiritual, para encontrar Deus. O que é essencial no deserto é o despojamento total, bem como a espera paciente e silenciosa de Deus na inatividade de nossas potências.

O deserto é um lugar de trânsito e que há sempre um retorno mais forte e mais sereno para junto dos homens, de quem não poderás esquecer-te nem mesmo durante o deserto.

Então, só nos resta um consolo, ânimo e coragem, pois o que Deus tem reservado para os seu, os nossos olhos ainda não podem vislumbrar.

Com carinho,

Luciano Medrado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário