Educar para uma sociedade inclusiva

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Por: Joelson Alves Onofre

Vivemos numa sociedade onde as referências à educação tem sido uma constante. Nunca se falou tanto sobre a importância da educação num mundo globalizado e cada vez mais competitivo. O ensinar e o aprender alcançaram dimensões significativas, pois o processo ensino-aprendizagem tornou-se uma realidade presente na relação entre os sujeitos aprendentes. Alguém ensina e alguém aprende. Quem ensina aprende e quem aprende tem algo a ensinar. Nessa relação, a educação se constitui numa construção do conhecimento que é pautado na busca de novos saberes, novas práticas e significações.

A educação concebida simplesmente como transmissão de conhecimento para o aluno ou o cidadão, não respeitando a autonomia desses sujeitos não mais se sustenta. Já preconizava a respeito da educação bancária o grande educador Paulo Freire, quando afirmava ser necessário a escola ensinar a leitura do mundo. “A leitura do mundo precede a leitura da palavra” (Paulo Freire). Antes do processo de escolarização e domínio dos processos de alfabetização, os educandos trazem e refletem na sala de aula o mundo vivido por eles, sua cultura, valores e saberes.

Educar para uma sociedade “inclusiva” pressupõe compreender toda uma complexa realidade presente nas salas de aula. Realidade na qual os educadores se encontram e sentem-se, muitas vezes, despreparados quando a questão é trabalhar com alunos que têm algum tipo de deficiência. A dificuldade que sentimos quando nos deparamos com situações desse tipo revela nossa fragilidade diante do convívio com a “diferença”. Embora tenhamos a certeza de que nosso papel enquanto educadores está sendo bem desempenhando e de que todo cidadão tem o direito de ter acesso á informação e ao conhecimento, ainda assim encontramos obstáculos que impedem de realizarmos um trabalho coerente com a nossa prática pedagógica. O medo do diferente e a incerteza quanto ao aprendizado de um aluno com necessidades especiais, impossibilitam o avanço de práticas de aprendizagens relevantes.

A sociedade inclusiva que almejamos deve pautar-se na compreensão do significado do termo “inclusão”. Educar para a inclusão é afirmar que Todos têm o direito de estudar numa escola regular com outros educandos, construindo juntos o conhecimento. Incluir não se restringe apenas na inserção do educando com necessidades especiais no ensino regular, sem acompanhamento específico. Os educadores necessitam de apoio técnico e acompanhamento pedagógico para reavaliarem suas práticas assim como ajudarem seus alunos na prazerosa tarefa da busca pelo conhecimento. Sabemos que tal empreitada não se constitui em tarefa fácil, mas exige dos/as educadores formação, pesquisa e experiência.

Nas últimas três décadas e mais recentemente tem se falado muito sobre educação inclusiva. Longe de ser considerada uma moda efêmera, ela objetiva garantir constitucionalmente o direito de todo cidadão freqüentar a escola. Uma escola que respeita e valoriza todos os alunos em suas características individuais e se modifica para garantir que esses mesmos alunos tenham seus direitos respeitados desempenhando seu verdadeiro papel social: ser espaço de convivência da diversidade e das singularidades de cada educando, seja ele possuidor ou não de alguma deficiência.

O que caracteriza a educação inclusiva é o fato de que é preciso que todas as crianças tenham a mesma oportunidade de acesso, permanência e aproveitamento na escola, isto independente de qualquer característica específica que o educando possua. Sendo detectadas as deficiências, os educandos necessitam do apoio técnico, acessibilidade e contato com recursos pedagógicos que auxiliem no desenvolvimento das atividades de forma que aprendam, cada um a seu tempo, as tarefas que são comuns aos demais alunos da classe.

Os efeitos positivos da prática da educação inclusiva podem ser percebidos quando educadores, familiares e toda a comunidade estiverem convencidos de que o objetivo da educação inclusiva é garantir que todos os educandos, com ou sem deficiência, participem ativamente das atividades propostas pela escola e na comunidade. Saber que cada aluno tem seu próprio ritmo de aprendizagem e respeitar os avanços e/ou retrocessos quando o próprio aluno não conseguir avançar nas atividades. Esse respeito ao tempo e ao ritmo de cada aluno, às diferenças nos processos de assimilação e desenvolvimento cognitivo são características de uma escola inclusiva.

A concepção inclusivista não permite que se rotule um aluno como aluno “problema”, esse suposto “problema”, considerado muitas vezes por educadores, gestores e outros sujeitos envolvidos no processo educativo, apresenta iminentes desafios à capacidade de cada professor e da escola de oferecer uma educação para todos. Embora muitas vozes se levantem contra a educação inclusiva, afirmando que ela não existe e que ainda não se efetivou consideravelmente, as inúmeras experiências de inclusão de alunos com algum tipo de deficiência em classes regulares de ensino demonstram que todos ganham com a presença desses alunos na escola. A riqueza da diversidade presente da sala de aula deve servir de estímulo para cada professor rever sua prática docente e começar a discernir sobre as possíveis contribuições que essa diversidade, aparentemente estranha, acrescenta em sua formação humana, pessoal e profissional.

Na educação inclusiva o aluno é quem produz seu próprio resultado. É ele o responsável direto pela aprendizagem. Os educadores atuam como mediadores, facilitadores do processo de aprendizagem desse aluno, subsidiado com a ajuda de profissionais da saúde e educação especializados em alunos com deficiência. Essa importante parceria demonstra que quem sai ganhando com a inclusão somos todos nós. Isso porque os alunos com deficiência, em contato com alunos sem deficiência, aprendem mais rapidamente, pois encontram nos colegas um modelo positivo de aprendizagem, podem ajudar e serem ajudados, a lidar e superar as dificuldades e saber conviver com os demais colegas. Em contrapartida, os alunos sem deficiência aprendem a conviver com as diferenças individuais, a respeitar os limites e o ritmo do outro, a partilhar conhecimentos e descobertas.

Na escola, espaço onde se congrega valores, respeito, princípios, construção do conhecimento, todos os alunos aprendem, com ou sem deficiência, porque a escola, assim como a sociedade precisam se conscientizar de seus papéis, ajudando na luta pela inclusão de todos os alunos, com ou sem deficiência. Não cabe apenas à escola a exclusiva tarefa de fazer acontecer a inclusão, mas sim à família, sociedade e comunidade civil. A instituição escolar não deve isentar-se dessa responsabilidade, mas precisa encontrar em outros atores sociais parcerias que são indispensáveis para o desenvolvimento e inserção desses alunos na escola, no mercado de trabalho, na vida social.

Uma sociedade que pretende assumir-se como inclusiva necessita, fundamentalmente, conscientizar-se de que todos os alunos, independentemente de suas peculiaridades, quando convivem e partilham dos mesmos espaços e atividades conseguem compreender e aceitar os outros, reconhecem as competências dos colegas e suas necessidades, respeitam todas as pessoas, lutam para a construção de uma sociedade mais justa e solidária, desenvolvem e criam laços de amizade, diminuem a ansiedade, o medo e a insegurança diante das dificuldades.

Tendo em vista o que fora refletido anteriormente, a inclusão propriamente dita não se resume na tentativa de inserir o aluno numa classe regular de ensino. Isso não é educação inclusiva. Nesse caso, o aluno está integrado, porém não incluído. Faz-se necessário não apenas coloca-lo numa sala de aula, sem o devido apoio de profissionais auxiliares, mas proporcionar-lhe meios que possibilitem seu pleno desenvolvimento junto aos outros colegas.

Educar para uma sociedade inclusiva é comprometer-se com a disseminação de novos paradigmas em relação a inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais e de todo e qualquer cidadão no ensino regular, gratuito e de qualidade.

Entendemos que só através da democratização da informação e da desconstrução de preconceitos relativos a educação inclusiva conseguiremos contribuir de forma eficaz para a importância de se repensar a educação como direito de todo cidadão brasileiro.

Joelson Alves Onofre
Professor de Filosofia, Especialista em Educação e Relações Étnico-Raciais, Membro do Núcleo de Informação, Estudo e Pesquisa Aprendendo Down – Itabuna/BA.
Endereço eletrônico: jaonofrecp@yahoo.com.br

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