CARTA À MINHA MÃE



Minha mãe,

O olhar de Deus não desviou da nossa vida em nenhum instante. Sabemos em quem temos confiado e crido. É ele que revela aos nossos corações o seu compadecimento e misericórdia no tempo das provações.

Sei que nos últimos dias não tenho conseguido ser 100% em exemplo e nunca conseguirei, estou em processo. Não me eximo dos atos errados realizados, mas sei que estou em constante transformação. Na vida humana não existe espaço para o torpor, a inércia e ao tamponamento. Na vida tudo é novo, nada é igual.

Nestes dias tenho andado preocupado com tudo o que tem acontecido comigo e não consigo deixar de transparecer no meu rosto fechado e carrancudo o que sinto por dentro. Penso que esta atitude é um mecanismo de defesa que encontrei para não ferir ninguém com palavras mal ditas. O que às vezes não fica compreendido e parece que estou de mal com tudo e todos.

Só tenho a minha família, só tenho a ti como mãe. Sei que em muitos momentos não consigo verbalizar o amor que trago por ti, às vezes também em atos concretos e explícitos.

Mas é no oculto, em ações que quase ninguém vê, retribuo o amor que tem oferecido a mim e por isso escrevo, pode parecer fácil, pois não precisa do enfrentamento olho a olho. Mas escrever também é uma forma de dizer o que não consigo verbalizar em sons audíveis.

No teu rosto, vejo a face feminina de Deus no respeito a mim conferido pelas escolhas que fiz diante da vida. E foi aí, justamente aí que fiquei constrangido, pois de uma forma muito concreta vivi e experimentei o que nunca imaginei viver. O Respeito pelo que sou. Tuas palavras em reanimar-me diante das perdas de pessoas que gostaria que estivessem ao meu lado. Conhece o drama e o conflito que vivo em minha sexualidade e somente eu e Deus sabemos o quanto é sofrido viver e experimentar essa fissura. Só Deus sabe o quanto isso me atormenta a ponto de seguir desanimado, cabeça baixa e fechada, tamanho o conflito que experimento interiormente. Obrigado, obrigado...

Em nossa última conversa no quarto, sei que nervosa, deixou escapar uma comparação. De imediato veio a minha mente o quanto era duro ainda criança quando painho me comparava ao filho do Dorival, no desejo de que eu fosse como ele. Veio-me a mente também naquele instante: O que é preferível? Um filho drogado, que constantemente é interpelado em sua porta por traficantes exigindo o pagamento da droga fornecida, ou ser homossexual e compulsivo que é interpelado algumas vezes por cobradores que vêm a nossa porta cobrar o vencimento de um livro? Não quero gerar culpa, libero perdão, estava nervosa e com direito.

É em gestos ocultos para deixar-te descansar e não ficar enfurnada na cozinha, no arroz cozido nas madrugadas, no feijão, na carne e tantas coisas mais que consigo "dizer" que te amo. Sou teu filho e tu és minha mãe. Só tenho a ti. Só tenho mãe, não tenho ou quem sabe nunca tive um pai como gostaria, mas libero perdão a mim e a ele onde quer que esteja.

Não me deixes perecer e fraquejar... Trago minhas feridas, Deus tem as cicatrizado, eu sei. Mas o processo é lento, cada organismo responde ao tratamento segundo ao seu processo único e individual. O trauma ou sofrimento pode ser o mesmo, mas cada um reage de forma diferenciada. Deus tem concedido tanta paciência a mim que não sei como agradecer. Mas fiel é Ele e na sua hora revelará o que tem prometido.

Fica comigo mãe, este é meu apelo, preciso de ajuda. Abraço,

Luciano Souza Medrado.

03 de março de 2008

Um comentário:

  1. puxa lu... lindo demais isso!... ñ te o q comentar... único, profundo, sincero... perfeito! parabéns! bjão!

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