SUBIDA AO MONTE CARMELO


"EM SUA FONTE, A CASTIDADE SE CONSTITUI NO AMOR ESPONSAL AO SENHOR E NO DESEJO DE AMÁ-LO E SERVÍ-LO COMO ESPOSO DE NOSSAS ALMAS, AMANDO-O COM UM CORAÇÃO INDIVISO." (ECCSH, 136)

João da Cruz, São. Obras completas. 2ª ed. Petrópolis: Vozes e Carmelo Descalço do Brasil, 1988.

Para atingir este estado sublime de união com Deus, é indispensável à alma atravessar a noite escura da mortificação dos apetites, e da renúncia a todos os prazeres deste mundo, diz o santo. O mundo não pode ser percebido aqui como uma realidade exógena a nenhum ser. Estamos impregnados e intrinsecamente envolvidos por ele, por isso, ninguém escapa a sua dinamicidade. Ele [o mundo] é um feito totalmente endógeno a cada um de nós. Não é verdade que às vezes nos pegamos cantando uma música sendo que não gostamos dela? Mas de tanto ouvirmos ela ser tocada em tantos lugares que facilmente somos impregnados por sua melodia. Esse é um dos inúmeros exemplos que poderíamos elencar aqui de como somos facilmente pêgos por tudo o que nos é exterior. É inevitável, por mais que não queiramos.

Continuando o pensamento de São João da Cruz, o santo afirma que:

"As afeições às criaturas são diante de Deus como profundas trevas, de tal modo que a alma, quando aí fica mergulhada, torna-se incapaz de ser iluminada e revestida da pura e singela claridade divina. A luz é incompatível com as trevas, como no-lo afirma São João ao dizer que as trevas não puderam compreender a luz" (Jo 1,5).

De fato as trevas não compreenderam a luz que emanava de Cristo mas em nenhum momento ele pediu que nos afastássemos de quem estava EM trevas, mas nos pediu que para estas pessoas fôssemos a luz do mundo. Só lembro de um episódio de repúdio e este é um alerta aos fariseus. Jesus disse para não sermos como eles, mas não pediu que nos afastássemos dos mesmos mas que fôssemos espertos como as cobras diante das sua ludibriações traiçoeiras. Somos seres dotados de sentimentos e é esta característica que nos define como humanos, diferente dos anjos; mas muitas vezes somos traídos pelos nossos sentimentos se não soubermos racionalizá-los e dar um norte a cada um, canalizando sua energia. São João da Cruz nos alerta que se tais sentimentos não passarem pelo crivo da razão, somos inclinados a ficar presos a algo ou a alguém por causa desses sentimentos mal interpretados.

A filosofia nos ensina que: "A razão está em que dois contrários não podem subsistir ao mesmo tempo num só sujeito". Neste texto os contrários são trevas e luz. Ora, as trevas, que consistem no apego às criaturas, e a luz, que é Deus, são opostas e dessemelhantes. Em nenhum momento o conceito filosófico pede que sintamos uma espécie de rejeição aos outros, tomando para si uma atitude egóica. O conceito nos previne dos apegos demasiadamente excessivos que nos fazem dar um valor incorreto a algo ou a alguém desmerecidamente, levando-nos a um esgotamento emocional e afetivo.

Para dar mais evidência a esta doutrina, observemos que o afeto e o apego da alma à criatura a torna semelhante a esta mesma criatura num jogo complexo de simbiose, dificultando a dissociação, ou seja o que realmente sou e o que o outro é em sua realidade mais honesta e presente. "Quanto maior a afeição, maior a identidade e semelhança, porque é próprio do amor fazer o que ama semelhante ao amado" (São João da Cruz).

Assim, o que ama a criatura desce ao mesmo nível que ela, e desce, de algum modo, ainda mais baixo, porque o amor não somente iguala, mas ainda submete o amante ao objeto do seu amor. Deste modo, ficamos subjugados aos prazeres e caprichos de quem amamos e não nos damos conta da nossa despersonalização e roubo da nossa subjetividade.

"Todo o ser das criaturas comparado aos ser infinito de Deus nada é. Resulta daí que a alma, dirigindo suas afeições para o criado, nada é para Deus". Não sou santo, sou pecador. Não quero me comparar a um São João da Cruz da vida, ou melhor da "morte" já que este goza os deleites divinos no céu. Mas posso discordar do que ele falou "aí nas aspas". Como eu não posso ser nada para Deus? Então tudo o que aprendi sobre sua entrega na cruz na pessoa do filho, foi tudo mentira? Não! Não foi. Me desculpe São João da Cruz mas eu sou em Deus e sei que Ele é em mim.

"A alma enamorada das grandezas e dignidades ou muito ciosa da liberdade de seus apetites está diante de Deus como escrava e prisioneira, porque sendo a escravidão incompatível com a liberdade, não pode esta permanecer num coração de escravo, sujeito a seus próprios caprichos; mas somente no que é livre, isto é, num coração de filho". Isso aí tudo bem, concordo contigo "cara". Sem que nos apercebamos chamamos de liberdade muitas realidades experimentadas [o que não significa que não tenham sido boas], situações vividas, ligação a pessoas que nos prendem a si etc. Tudo isso é alienação.

Santo Agostinho compreendeu esta verdade quando disse ao Senhor em seus solilóquios [conversas solitárias]: "Miserável que sou! Em que a minha pequenez e minha imperfeição poderão se comparar com a vossa retidão? Sois verdadeiramente bom, e eu mau; sois piedoso, e eu ímpio; sois santo, e eu miserável; sois justo, e eu injusto; sois luz, e eu cego; sois vida, e eu morte; sois remédio, e eu enfermo; sois suprema verdade, e eu tão-somente vaidade". Tudo isto diz o Santo.

(Texto Adaptado)


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