O Cântico do Amor, 32
Richard Rolle (c. 1300-1349), ermita inglês
"Eu vim para chamar... os pecadores, para que se convertam" Na cruz, Cristo chama com grandes gritos... Ele oferece a paz e dirige-se a ti, desejando ver-te abraçar o amor...: «Pensa só nisto, meu bem-amado! Eu, que sou o Criador sem limite, desposei a carne para ser capaz de nascer de uma mulher. Eu, que sou Deus, apresentei-me aos pobres como seu companheiro. Foi uma mãe humilde, a que escolhi. Foi com os publicanos que comi. Os pecadores nunca me inspiraram aversão. Quanto aos perseguidores, pude suportá-los. Experimentei o chicote e "humilhei-me até à morte, e morte de cruz" (Fl 2,8). "Que deveria ter feito e não fiz?" (Is 5,4) Abri o meu lado com a lança. A minha carne ensanguentada, porque não olhas para ela? A minha cabeça inclinada (Jo 19,30), porque não lhe prestas atenção? Aceitei que me contassem no número dos condenados e eis que, submergido em sofrimentos, morro por ti, para que tu vivas para mim. Se não fazes grande caso de ti mesmo, se não procuras libertar-te dos laços da morte, arrepende-te, pelo menos agora, por causa de mim, que derramei por ti o bálsamo tão precioso do meu próprio sangue. Olha-me a morrer e pára nessa encosta de pecado. Sim, deixa de pecar: custaste-me tão caro! Por ti encarnei, por ti também nasci, por ti me submeti à Lei, por ti fui baptizado, esmagado de opróbrios, preso, amarrado, coberto de escarros, escarnecido, flagelado, ferido, pregado na cruz, embebedado com vinagre e, por fim, imolado. Por ti. O meu lado está aberto: agarra o meu coração. Corre, abraça-te ao meu pescoço: ofereço-te o meu beijo. Eu adquiri-te como minha parte da herança, por forma a que nenhum outro te tenha em seu poder. Entrega-te todo a mim que me entreguei totalmente por ti.»

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