Passar pela vida sem se relacionar profundamente, sem permitir ter sentimentos é não crescer, não se deixar transformar.




Olá amigos leitores, depois de um bom tempo sem postar volto com um texto, na verdade uma resenha do filme "Voltando a Viver" apresentada na Universidade (UESB), onde curso Licenciatura Plena em Pedagogia, resenha esta como material de avaliação na disciplina Psicologia da Educação e quero aqui compartilhar com vocês, pois acredito ser válido, refletido e reflexionado o que me propus a escrever tendo como pano de fundo a temática do filme e as teorias psicológicas.




ANÁLISE DO FILME “VOLTANDO A VIVER”.


REENCONTRAR O PASSADO ABRINDO AS GAVETAS DA ALMA.

Por Luciano Medrado.


“Viver. Palavra entusiasta, que se transforma em clamor. Hoje, estamos sendo violentados porque roubados em nosso direito mais sagrado que é viver. Viver. Palavra que só tem sentido quando partilhada. Sozinha não significa nada, fica opacizada, embotada. Mas se partilhada é cheia de presenças. O ser humano não foi feito para ser sozinho. O coração humano também. Mas para ser habitado por presenças. Mas nem tudo que vai ao coração tem vida. Às vezes trazemos realidades transtornadoras que vão apodrecendo em nosso coração, fazendo com que o mesmo exale um odor fétido de individualidade, indiferença e solidão, porque as presenças não deixaram marcas satisfatórias que por sua vez nos dinamizasse em busca de relacionamentos produtivos. Ainda restaram os destroços, as marcas, os estigmas de um passado não bem vivido e não aceito. Mas se não me reencontro com o meu passado e procuro reconstruí-lo estou fadado à morte constante de mim mesmo”.

(Luciano Medrado)



"Voltando a Viver", filme dirigido e estrelado por Denzel Washington nos conta a história de um jovem que colocava como obstáculo a seu sucesso a infeliz história familiar durante sua infância. Nesta obra cinematográfica proponho-me a fazer uma leitura da mesma, auxiliado nos estudos psicanalíticos de Freud, este será o nosso companheiro para nos ajudar a desvendar o que se encontra trancafiado na gaveta da nossa alma. Para tornar a leitura agradável manterei o tom coloquial mesmo quando buscar cientificamente nos estudos freudianos subsídio para fundamentar o que proponho explicitar. Vamos juntos voltar ao passado para nele reencontrar a alegria de voltar a viver.

Encontrar-se consigo é uma experiência que confere à pessoa uma específica profundidade. Não sem dor, é claro, mas, descobrir-se é uma experiência que faz crescer. Existem muitos que fogem de si mesmos e de suas verdades por medo de contemplar fraqueza e limitação. Outros temem perceber-se por receio de encontrarem realidades diante das quais se é obrigado a dizer: “Sou assim, não sei por que, mas, sou assim...São inúmeras as ações e reações que trazemos, e que por ora, não conseguimos compreender. Porém, fugir desse encontro por medo de nos descobrirmos e, conseqüentemente, nos decepcionarmos com nós mesmos não é o melhor caminho. A verdade sempre liberta por mais opaca que pareça, ela sempre liberta.Temos uma história constituída por vitórias e derrotas, todos carregamos dores, traumas e frustrações que, em algum momento da vida, precisaremos enfrentar e resolver.
Freud (1890) nos ensina que nossa história pessoal é construída nos primórdios da nossa infância. Há na psicanálise que ele descobriu, um aspecto de suma importância, que marcou a grande diferença entre o seu trabalho e o que era realizado por outros na mesma área: foi o fato de descobrir que a sintomatologia dos pacientes era determinada por experiências ao nível psicológico, tanto dos primeiros momentos da vida, como correntes, às quais ter-se-ia de somar fatores físicos, hereditários e constitucionais. Quem não se reconcilia com a própria história nunca será verdadeiramente livre. Por mais dura que tenha sido nossa história, não devemos temê-la. Por mais que não compreendamos os “porquês” das desventuras, que nos marcaram, não podemos fugir, desprezando o mistério que nos forma mesmo sem nos dar “respostas prontas”. Só consegue compreender, de fato, o que significa a palavra “depender”, aquele que faz a experiência de se descobrir nas suas fraquezas e limitações, pois estas realidades nos fazem perceber que precisamos de ajuda, que não somos perfeitos e auto-suficientes e que precisamos de alguém que nos acompanhe no encontro com nossa verdade.O processo da mudança só acontece quando tomamos a consciência de que precisamos nos deixar ajudar e “acompanhar”. É neste momento preciso que entra em cena o psicanalista, profissional que por um método de investigação busca os atos inconscientes, das palavras e produções imaginárias do paciente, por meio, da associação livre, que é o ato de deixar com que o paciente se coloque numa atitude confortável, permitindo ao mesmo deixar fluir os seus pensamentos sem a interrupção por parte do analista e sem a preocupação de ser censurado. Por isso mesmo não se pode negar que na prática psicanalista deve existir todo um trabalho intelectual a ser desenvolvido com os dados que se houver levantado, auxiliados com a empatia, sendo esta definida como a apreciação emocional dos sentimentos alheios ou a abstração da própria vida interior, para aceitar um conteúdo psíquico diferente. Eis a tarefa do psicanalista.
Um perigo que pode ocorrer neste trabalho seria quando o analista ou o analisando não desenvolvem tal empatia. Pode acontecer que o analista formule teorias precipitadamente, por está trabalhando com dados insuficientes. Teríamos então algo como um exercício meramente intelectual do processo, vindo de um analista que tenha tomado por conta evitar o envolvimento com seus pacientes que, por isso mesmo, se robotizam, transformando-se em verdadeiros arquivos de dados e quando muito, em produtores automáticos de informações que, por sua vez, seriam reduzidas à interpretações.
Ninguém muda ninguém; ninguém muda sozinho; nós mudamos nos encontros. Já ouvi dizer que os dois fatores que mais nos influenciam e nos transformam são os livros que lemos e as pessoas com as quais convivemos. Será? Quanto a mim a afirmativa é real. Admiro-me quando observo o quanto sou transformado, e o quanto aprendo a partir dos encontros que tenho e dos livros que leio. Principalmente, quando me abro para acolher os impactos que as idéias e sentimentos do outro me causam. Um dia desses, ouvi uma partilha que me fez compreender melhor o que estou afirmando. Falando sobre relacionamentos, um amigo fez a seguinte reflexão:
"Você já observou a diferença que há entre as pedras que estão na nascente de um rio e as que estão em sua foz?" Balançando a cabeça eu disse que não e, ele me explicou. "As pedras na nascente são cobertas de lodo, pontiguadas e cheias de arestas. À proporção que elas vão sendo carregadas pelo rio, sofrendo a ação da água e se atritando com as outras vão sendo polidas, aparadas. As arestas vão sumindo. Elas ficam mais orgânicas, mais suaves, lisas, e o melhor: vão ficando cada vez mais parecidas com as outras, sem necessariamente serem iguais. Quanto mais longo o curso do rio, mais transparece a mudança." Depois disso, compreendi onde queria chegar, mesmo assim ele completou:"A mesma coisa acontece conosco se nos abrimos corajosamente aos relacionamentos profundos. O "Rio da Vida" nos conduzirá entre um atrito e outro (contato com o próximo) eliminando arestas, desbastando diferenças, e harmonizando-nos uns com os outros, sem necessariamente perdermos nossa identidade, nossa essência."

Pensando bem, esta é uma verdade inegável. Claro que alguns relacionamentos nos deixam marcas digamos negativas. Tiram lascas e às vezes até pedaços de nós.
Passar pela vida sem se relacionar profundamente, sem permitir ter sentimentos é não crescer, não se deixar transformar. É começar e terminar a existência com uma forma bruta, sem brilho, sem vida. Carrego várias marcas de pessoas importantes que passaram ou permanecem em minha vida. No contato com elas, fui tomando a forma que tenho, muitas arestas foram eliminada. Transformaram-me em alguém melhor. Outras, com suas ações e palavras, criaram em mim novas arestas, que precisam ser aparadas pelos que virão. Faz parte do jogo! Podemos chamar isso de experiências válidas.
Penso que os seres de grande valor, percebem que ao final da vida foram perdendo todo os excessos que formavam suas arestas, se aproximando cada vez mais de sua essência, e ficando cada vez menores. Quando finalmente aceitamos que somos pequenos, dada a compreensão da existência e importância do outro, é que finalmente nos tornamos grandes em valor. Já viu o tamanho do diamante? Sabes quanto se tira de excesso para chegar ao seu âmago? É lá que está o verdadeiro valor.
Ninguém merece ser sozinho. É no encontro com o outro que o eu se afirma e se constrói existencialmente. O outro é o espelho onde o eu se solidifica, se preenche, se encontra e se fortalece para ser o que é. O processo contrário também é verdadeiro, pois nem sempre as pessoas se encontram a partir desta responsabilidade que deveria perpassar as relações humanas.
A vida é mais feliz quando acontece em relação, quando o coração desenvolve a capacidade de dividir aquilo que é. Dores com “nomes” e pessoalidade tem mais significado, e podem ajudar muitos a crescer.
Partilhar a compreensão do mistério que se é, e ter sensibilidade para compreender o outro, é expressão concreta de caridade e base para a fecunda relação humana que nos realiza enquanto pessoa. Há quem viva aprisionado, fechado unicamente em seu jeito de enxergar a vida. Assim, os dias ficam gradativamente ausentes de sentido e motivação, pois, quando nos fechamos anulamos nossa capacidade relacional, não conseguindo amar e sermos amados, valorizar e sermos valorizados.
Precisamos dos outros. Precisamos de pessoas que nos conheçam sinceramente, pessoas diante das quais podemos ser o que realmente somos. Isso nos faz mais gente. Isso é alteridade.
O homem é constitutivamente ser de relação, e o dado mais claro que comprova que alguém não está bem é a não-capacidade de se relacionar. Nossas histórias são mais belas quando partilhadas, quando começam a fazer parte de outras histórias. Não somos fins em nós mesmos, precisamos de outros que “autentiquem” nossas experiências e partilhem nossas dores. Todos temos grande valor e somos capazes de amar. Aquilo que somos, quando partilhado, pode fazer bem a muitas pessoas.
Quando rompemos com o egoísmo e retiramos as “máscaras”, sendo aquilo que somos com as pessoas, temos uma grande possibilidade de sermos amados em nossa verdade, sem fantasias e ilusões, e também de conhecermos e amarmos outras verdades.Não é preciso ter medo de partilhar o que somos, e nem de gastar tempo escutando outras histórias. Ninguém pode ser feliz sozinho, não somente no sentido afetivo, mas principalmente, existencial.
A vida é marcada por novidades. Na medida em que vivemos, deparamo-nos cotidianamente com inúmeras descobertas. Em determinados momentos, as novidades vividas são ruins, em outros, são boas, mas, querendo ou não, o "novo" sempre vem, e mudanças sempre acontecem. Alguém que vai embora, um emprego que se perde, um amor que vai embora, a vida nos reserva muitas surpresas, e através delas podemos sempre crescer.
Existem mudanças que podem ser positivas, outras até mesmo necessárias. Quando rompemos com o medo, assumindo, com humildade, a graça de não sermos sabedores do futuro, podemos ser extremamente formados pelo mistério, que, aos poucos, vai se revelando, desvelando nossa verdade e acrescentando àquilo que somos.
O "novo", as mudanças, as perdas revelam aquilo que somos, pois, à medida que vamos reagindo diante de cada nova situação, vamos descobrindo novas áreas de nós mesmos, e podemos compreender um pouco mais quem somos nós. Não é pela ação que você conhece uma determinada pessoa, mas por suas reações, pois, as ações podem ser programadas e as reações sempre são naturais.
Cada tempo novo, cada situação nova na vida, é um momento privilegiado para se descobrir no melhor e no pior, nas fraquezas e nas virtudes. Não existe crescimento sem auto-conhecimento. Por isso não podemos temer o "novo", pois quando o vivemos bem, deixando as coisas acontecerem a seu tempo, crescemos significativamente na compreensão do mistério que somos nós. Não fugir de si mesmo, e de algumas mudanças necessárias, é um caminho de maturidade. Enfrentar-se, com humildade e paciência, diante das próprias limitações, significa preparar o caminho para a virtude. A felicidade habita no coração, que, aos poucos, se torna livre, natural e sem ilusões a respeito de si e da vida.
Todo ser humano traz em si uma profunda necessidade de auto-afirmação. Todos desejam a valorização por parte dos demais, porém, essa necessidade – de ser aceito e de se afirmar diante da vida – precisa trazer em si certa medida de equilíbrio e maturidade, pois, quando não é assim, tendemos a agir puramente aprisionados por nossos instintos. Todo mundo quer ser acreditado, todos querem ter a razão e a verdade em sua conduta. Por vezes, queremos que nossa maneira de pensar seja acolhida pelos demais, mas, precisamos ter a consciência de que nem sempre estamos certos, e que não podemos exigir que nosso modo de pensar seja acolhido por todos como verdade absoluta.
Muitos são peritos em defender sua própria verdade, mas, verdadeiramente maduro é aquele que sabe ouvir e acolher o ponto de vista dos outros, abrindo-se ao diálogo e reconhecendo que os demais também têm coisas boas a ensinar e a oferecer, e, que, por esta razão merecem ser respeitados. Todos têm algo a nos ensinar, o ponto de vista alheio contempla realidades não percebidas por nós. É feliz quem sabe ouvir e acolher o que outro expressa, pois tal atitude faz com que sejamos pessoas mais completas, rompendo assim as barreiras do egoísmo que nos fazem acreditar que somente nós estamos certos.Ouvir é uma virtude, e por meio do diálogo alcançamos grandes progressos.A vitória mora na humildade, que sabe abrir mão de suas próprias razões, para que o outro seja um pouco mais, assim o consenso acontece e ambas as partes são capazes de crescer. Muitas vezes, na vida, a gente tem que aprender a conviver com a insatisfação, nem tudo é do jeito que queremos e, se ficamos apenas à espera da perfeição idealizada, podemos cair na loucura de ausentar à vida de si mesma, ou seja, de excluir dela particularidades que lhe são essenciais.
A vida é marcada por contrariedades, somos o que podemos e não o que queremos, amamos como somos capazes e não como desejamos. Sonhamos alcançar metas de determinadas formas e nem sempre conseguimos. Vivemos em um constante processo de perdas e ganhos, de vitórias e derrotas, isso é próprio do ser humano. Pena que nem sempre sabemos lutar com o imperfeito que temos e somos, assim, ficamos à espera de coisas perfeitas, enquanto que a vida vai acontecendo em meio às precariedades que lhe são próprias. Quem espera muito a perfeição, acaba por ficar a vida inteira esperando, esperando... e assim deixa de viver, tornando-se apenas alguém que assiste a vida e não a vive.Viver bem significa ser personagem e não somente espectador, a vida se constrói na prática e não apenas na teoria, e se estabelece vitoriosa quando saímos da janela e entramos em cena. Somos convidados a viver e não somente a idealizar. Cada um precisa escrever, na pauta da própria vida, o enredo de sua própria história, sem ficar esperando que "num passe de mágica" a vida se transforme na perfeição idealizada.
Mistério, esta palavra sempre me atraiu pelo encanto e profundidade que lhe é própria. A vida da gente é cercada de mistérios e é bom que seja assim, pois se tivéssemos o entendimento de todas as coisas a vida perderia o sabor e perderíamos a fragilidade que consiste em não saber todas as coisas. A surpresa traz em si um encanto que tempera a vida e torna melhor os dias. É bonito se descobrir humilde o bastante para acolher o mistério e para reconhecer que existem áreas da existência que ainda são desconhecidas.
Existiu um filósofo chamado Cassirer que escreveu: "O ser humano é imprecisão", concordo e acrescento: "o ser humano é mistério". Somos um mistério para nós e para os outros. Existem áreas de nossa vida que ainda não conhecemos, existem reações que temos que ainda não compreendemos, somos assim, peregrinos em nós mesmos e a cada passo descobrimos o que realmente somos.
Anna Freud em “O Ego e os Mecanismos de defesa” é sábia em nos explicar porque nós resistimos em nos conhecer e desvendar o mistério que somos. Ela emprega a palavra defesa utilizada por Freud para descrever a luta do ego contra idéias ou afetos dolorosos ou insuportáveis. Mais tarde esta palavra será substituída por repressão designação geral para todas as técnicas de que o ego se serve como proteção contra as exigências institivas. Mais tarde o significado da repressão será reduzido a um método especial de defesa.
Em sua obra sobre a teoria dos instintos “Instinctis and their Vicissitudes”, Freud descreve os processos de inversão contra o eu , sendo este um mecanismo de defesa no qual as pulsões se manifestam em forma aparentemente inversa. Assim por exemplo no caso de uma mãe super protetora e mal acostumada, os impulsos nela agressivos se transformam em impulsos aparentes de amor. O outro processo foi designado como reversão que seria um método de estudo da eficiência de uma medida na modificação de comportamento. A estes mecanismos de defesa Freud os chamou de vicissitudes do instinto tendo a sua origem em alguma atividade do ego. Se não fosse a intervenção do ego ou daquelas forças externas que ele representa, todos os instintos conheceriam um único destino que seria a gratificação. Se o instinto pudesse obter a gratificação, apesar da oposição pelo superego ou pelo mundo exterior, o resultado seria, em primeiro lugar, prazer de fato; mas secundariamente, dor, quer em conseqüência do sentimento de culpa emanando do inconsciente, quer pela punição infligida pelo mundo exterior. Logo quando a gratificação instintiva é rechaçada, por um ou outro desses motivos, a defesa é levada a cabo de acordo com o princípio da realidade.
Na sua trajetória de estudos psicanalíticos Freud elencou vários mecanismos de defesa de que se utiliza o ego para se defender de idéias dolorosas e insuportáveis como a regressão (mecanismo de defesa pelo qual o indivíduo retoma relações objetais (estágios libidinosos), formas de pensamento e de comportamento de um estágio de desenvolvimento já ultrapassado), repressão (É o processo pelo qual o indivíduo procura mergulhar no inconsciente e/ou manter aí conteúdos do inconsciente, sobretudo aspectos pulsionais, pelo fato de estes conteúdos desencadearem conflitos e causarem angústia), formação reativa (O movimento perigoso de um pulsão é recalcado por uma pulsão exatamente oposta. Ex.: a pulsão de inimizade, que não é permitida, é contraposta com um exagero de amor), isolamento (Mecanismo de defesa. Representações conexas ou uma representação e sua respectiva emoção são separadas uma da outra. Dessa forma a pessoa se defende da sensação dolorosa que poderia surgir quando os mencionados fenômenos aparecem em conjunto), anulação (Através de ações simbólicas, o indivíduo procura eliminar danos que, conforme ele supõe, poderiam ter sido causado por desejos originados de impulsos), projeção (Mecanismo de defesa pelo qual se atribuem conteúdos conscientes tais como desejos, afetos etc., que não parecem aceitáveis e cuja aceitação desencadearia a angústia a objetos(pessoas ou coisas) do mundo exterior) e por fim a introjeção (é o processo pelo qual, na fantasia, o ego assume objetos ou representantes do mesmo. Está estreitamente relacionado com a identificação).
Eu não preciso ser o que os outros querem. Uma das dores que mais afligem o ser humano nos dias de hoje, é a culpa, o sentimento de culpa, o sentir-se culpado e condenado.
São inúmeras as pessoas que vivem suas vidas inteiras aprisionadas pela culpa, e que por vezes nem é real. A raiz desse terrível sentimento na maioria das vezes brota do sistema no qual nossa sociedade esta inserida. É que, a sociedade atual exige de nós determinados padrões para sermos amados e aceitos, e isso, muitas vezes, até mesmo no meio religioso. Temos que estar dentro de um perfil. Ex.: Você tem que ter o melhor trabalho, o melhor carro, ter a namorada (o) mais bonita (o), tem que se vestir bem, enfim, tem que ser o melhor; somos muito cobrados e, se não correspondemos, somos desclassificados e condenados, por não ser o que as pessoas queriam que fôssemos. Por isso, nos sentimentos profundamente culpados e perguntamos a nós mesmos, o que fizemos de errado. É só parar e refletir: “Quantas pessoas já desprezamos e excluímos de nossa vida, por não serem o que gostaríamos que elas fossem?!” Quantos passam a vida inteira, aprisionados nas opiniões e olhares alheios, como eternos infelizes e culpados, porque não conseguiram agradar os outros, ou não conseguiram usar da falsidade necessária para fazê-lo. Como dizia um filósofo francês chamado John Sartre: “O inferno é o outro; basta que ele olhe pra você com olhos de inferno para que o inferno aconteça em sua vida” E o pior é que muitos dão sentenças que encarceram outros, em um inferno moral chamado culpa.
Creio ser essa a libertação que o homem mais necessita no dia de hoje, a libertação das opiniões e olhares alheios, do que acham, ou deixam de achar dele. No estudo da psicanálise encontramos a distinção de três sistemas da personalidade humana que explica todo o exposto acima, dinamizando a nossa vida. Vejamos: o primeiro Freud chamou de Id, para ele este é o sistema original da personalidade compreendendo todos os componentes psicológicos presentes no nascimento, incluindo-se aí os instintos. Este sistema exprime o que há de mais de mais impessoal, involuntário, e inconsciente, nas forças mais profundas que governam a vida. Este sistema é despossuído do princípio da realidade vivendo e se satisfazendo-se simplesmente por meio do prazer e da satisfação. Ele procura a resposta direta e imediata frente a um estímulo instintivo, sem distinguir entre a realidade e a fantasia. Não sendo satisfeito, o Id encontra, nos indivíduos sadios, uma saída nos sonhos e, nos mentalmente enfermos, nas alucinações.
O outro sistema é o Ego, parte consciente da personalidade que se desenvolve por meio da diferenciação das capacidades psíquicas em contato com as realidades exteriores. Ele é o princípio da realidade, o mediador entre o Id e o mundo exterior que “briga” constantemente com o superego, regido pelos valores e conceitos morais construídos e determinados pela sociedade. O objetivo do superego é a avaliação da situação podendo vir a adiar a satisfação de uma necessidade, até que um método satisfatório seja encontrado.
Quando se fala de Psicanálise, fala-se de uma teoria que pode ser classificada como teoria psicodinâmica da personalidade uma vez que é por meio desta teoria que se busca explicar a natureza e o desenvolvimento da personalidade, dando-se ênfa-se à importância das motivações, dos afetos e de outras forças internas. É uma teoria que preconiza que o desenvolvimento da personalidade só se desencadeia quando o conjunto dos conflitos psicológicos são resolvidos, sabendo-se que a gênese destes conflitos residem na infância inconsciente.
Neste ponto Freud foi muito eficiente ao descobrir o meio de se “acessar” as recordações mais arcaicas ensinando-nos, que as lembranças infantis que se conservam no inconsciente e que de lá podem ser trazidas, na vida adulta, ao exterior, valendo-se o analista de sonhos, erros de linguagem, atos falhos e de um imenso número de manifestações por parte do analisando. Manifestações estas que não voltam à consciência não porque houvéssemos perdido, mas porque, de alguma forma, não lembramos porque julgamos não se adequarem à nossa vida atual.
Não devemos temer e recusar voltar ao passado, abrir as portas das gavetas que um dia foram trancafiadas, para lá dentro, encontrar os velhos papéis onde cada história foi escrita. Reconhecer que os papeis já não se encontram como antes. Ao tomá-los em nossas mãos percebemos uma coloração diferente, amarelada pelas intempéries sofridas. Mas devemos acolhê-los com cuidado porque são reveladores, é o encontro com o passado. Passado que agora me volto a ele para reconciliar, ler as entrelinhas de cada página e perceber nelas a tarefa de reeditá-las, reescrevê-las.
O passado é a experiência mais concreta que o homem possui, o passado é a única coisa que nos pertence no sentido de habitar nosso interior e influir em nosso presente e em nosso futuro.
Segundo (CENCINI, 1999), “o passado do homem, de cada homem não pode ser considerado como um destino, como algo que aconteceu e terá uma fatal continuação, sem qualquer outra alternativa possível. O raciocínio causal, que faz a ligação entre o passado e o presente como uma sucessão de causas e efeitos, está cada vez mais abandonado pela psicologia moderna a favor de uma concepção que dá maior espaço para a liberdade humana, e a sua capacidade em colocar-se diante do próprio passado, qualquer que ele tenha sido, de modo fundamentalmente livre. O princípio de base é este: o homem pode não ser responsável pelo seu passado, mas de qualquer forma é responsável pela atitude que assumir, no presente, em face desse passado. Se a pessoa tende a recriminar o seu passado, acusando esse passado de ser responsável pelos seus problemas e complicações atuais, apontando o dedo contra esta ou aquela situação de sua vida, ou, pelo contrário, justificando-se de tudo quanto aconteceu de com ele, pretendendo mesmo gratificações ou dando a desculpa de sua imaturidade, ela precisa entender que a pessoa, em qualquer caso é livre para dar um significado a seu passado e é responsável pela atitude que hoje assume diante dele. Ninguém pode lhe tirar es ou dando a desculpa de sua imaturidadeeceu de com ele, pretendendo mesmo gratificaçesente e em nosso futuro.
essa liberdade e responsabilidade, como a pessoa não pode eximir-se dela. O passado deve ser assumido como o meu passado. Ele continua vivo em nossas mãos, e à espera de receber um significado que ninguém a não ser o próprio indivíduo lhe pode dar”.




REFERÊNCIAS

FREUD, Ana. O Ego e os Mecanismos de Defesa. 4 ed. Coleção Corpo e Espírito. Vol 6. São Paulo: Civilização Brasileira.
BRUNNER, Reinhard. Dicionário de Psicopedagogia e Psicologia educacional / Brunner, Zeltner; Tradução de Cacio Gomes; Revisão Técnica de Helga Reinhold. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
NOGUEIRA, Maria Emmir Oquendo; LEMOS, Sílvia Maria Lima. Tecendo o fio de Ouro.2 ed. Revisada. Fortaleza: Edições Shalom, 2003.
CECINE, Amadeu. A História Pessoal, Morada do Mistério. 2 ed. São Paulo Paulinas, 1999.
Artigo de Uyratan de Carvalho, Psicanalista Clínico e Didata.

Nenhum comentário:

Postar um comentário