O Humano perpassado pelo Divino


O HUMANO PERPASSADO PELO DIVINO

Deus olha para ti, sejas tu quem fores e "chama-te pelo teu nome". Vê-te e compreende-te, Ele que te criou. Tudo o que há em ti, Ele o conhece: todos os teus sentimentos, os teus pensamentos, as tuas inclinações, os teus gostos, a tua força e a tua fraqueza... Não é só porque fazes parte da sua criação, Ele se preocupa mesmo contigo. Tu és um ser humano, resgatado e santificado, perpassado pelo divino. Todos trazemos a necessidade de nos reconhermos em nós mesmos, descer à fundo na nossa verdade e experimentar a sacralidade de ser. Ser na filosofia é existência, existência vem de lançar-se para fora, mas às vezes preferimos ficar escondidos porque ainda não estamos acostumados com a nossa verdade. Mas por quê? Porque estamos ainda presos aos convencionalismos ridículos e não às nossas próprias convicções. Não tenho medo nem vergonha de ser quem sou, a minha felicidade brota da certeza de me amar como me encontro, estou em reforma constante e isso é bom. Essa é a dinâmica da "feitura" humana, tornar-se sempre. Aprendi com o Padre Fábio de Melo, “que tudo prepara uma forma de depois, como se o agora fosse uma passagem constante que nos conduz com seu cordão invisível”. Ainda é ele que ensina: "Eu vou. Vou sempre. Não sei não ir, tenho metas a traçar, objetivos a cumprir, às vezes vou sozinho. Minha curiosidade me move para dentro de mim. Sou um desconhecido interessante. A cada dia uma nova notícia me entrego. Ando amando mais. Meus amigos são tantos; meus limites também. Eu sou sem medo de errar. Eu desejo a sacralidade de cada dia. Deitar no chão da existência é tão necessário. Eu me levanto mais devolvido, porque há muitas partes de mim esparramadas, caídas pelas esquinas da vida. Estou em reformas".
Na vida é impossível parar. Mesmo quando decidimos não avançar, a vida avança. E às vezes temos mesmo a impressão que ela corre. E nesse nosso viver, encontramos diariamente caminhos na nossa frente. Em cada situação há sempre uma opção de estrada. Escolhemos então a mais longa, mais curta, mais fácil, mais difícil... Somos guiados por vontades, necessidades, coração, emoções... E na verdade nem sempre sabemos onde nos conduzirá nossa escolha. Mas se não tivermos metas, todos os caminhos percorridos nos levarão a lugar nenhum e facilmente desistiremos da caminhada devido ao imenso fastio. Mas é preciso a cada dia, cada passo, seguir e assumir. Ninguém, ninguém mesmo pode ou deve ser responsável pelas nossas escolhas. E mesmo se damos ouvidos a um amigo, aos pais, a escolha final e responsabilidade final sempre será nossa. Muitas vezes sofremos porque escolhemos caminhos errados. E sabemos que não há volta para as caminhadas da vida, o que nos é oferecido é a reconstrução, mas sempre teremos a opção de dirigir nossos passos para direções diferentes. E então uma nova vida pode ser recomeçada com todos os riscos possíveis. Digo recomeçada não no sentido de recomeçar, fazer tudo de novo, ou seja, igual. Não! Eu quero é reconstruir, fazer diferente, tentar o novo. Como diz a Letícia Thompson, é tempo de preparar as bagagens, pois daqui a algumas horas o próximo trem chega à última estação. Com cuidado vamos selecionando o que queremos carregar. Outras coisas nos seguirão independentes de nós. Estão impregnadas na nossa pele e qualquer que seja o próximo caminho, nos acompanharão. E é bom que assim seja! Essas coisas, freqüentemente doloridas, serão nossos sinais de atenção para os próximos passos, nossa febre nos alertando que devemos ter cuidado. São as benditas dores que nos tornam pessoas reais e humanas, sensíveis e verdadeiras, aprendi a pensar assim com a Letícia Thompson, grande escritora, apresentada a mim por uma grande amiga, a Marianne. Estamos sempre arrumando nossas malas, sempre ouvimos alguém dizer q é hora de partir, deixar para trás as realidades acontecidas na certeza de ter aprendido com elas, mas nem sempre tudo fica pra trás, carregamos conosco os sentimentos, as lembranças mais marcantes, não importa o lugar que agente vá elas nos acompanham. Não posso ser diferente, outro de mim, não sei amadurecer sem abrir as gavetas do velho passado e saber que hoje o resultado de tudo aquilo estão impregnados na minha pele. Eu não sou sem desprezar o q fui. Aqui está a dinâmica humana, tomar nas mãos o passado com coragem e delicadeza, assim como os restauradores de biblioteca q pegam fragmentos de livros importantes em suas mãos e com tanto cuidado manuseiam, para q tais páginas se tornem reveladoras de um passado q pode ser presentificado. Precisamos descobrir a sabedoria de presentificarmos o nosso passado, pra reconstruí-lo, melhorá-lo aqui, agora, nesta chance q se faz hoje presente. Nem sempre conseguimos visitar certos lugares do nosso interio, sozinhos não conseguimos, mas se estivermos acompanhados sempre encontraremos força. Somente Deus pode entrar em lugares que até então era desconhecido por mim. É Ele que vai comigo a lugares que muitas vezes tenho medo de ir, porque faz lembrar situações dolorosas, mas quando é Ele que nos acompanha é para juntos superarmos os traumas. É preciso tomar nas mãos a vida e reverenciá-la com respeito, ser cúmplice dela, saber q na minha história pode até ter existido culpados, mas se eles se tornaram culpados por qualquer estrago o menor q seja, o maior culpado sou eu, porque permitir a entrada deles, deixando suas marcas e impressões. Hoje, nada de amargura e azedume, a vida é uma grande lição onde e somente os sábios são aprovados. Quero ter sabedoria, não para tornar-me soberbo, mas para ser mais inteligente em meio aos enfrentamentos do real e não ser tantas vezes traído pelas minhas incertezas, inseguranças, sentimentos e dúvidas. Mas eu gosto das dúvidas elas nos ajudam a pensar. Pensar como nos apresenta a filosofia é um jeito de interferir no mundo. E isso eu quero, quero ser autêntico, não quero impor meu jeito de pensar sei que muitos não me acompanharão. E é bom que não me acompanhem mesmo. Prefiro deixar as pessoas livres, é na liberdade da vida que conquistamos a nossa maturidade, respeitando nossa história, cada etapa, sem atropelos e não viver a história que o outro têm pra mim. Deixa que eu faça o meu caminho, as minhas experiências. Assim imprimirei em mim a marca da minha identidade. Ser o que sou e quero ser sem medo de errar. Precisamos aprender com a vida, a cotidianidade tenta nos falar, mas nos mantemos surdos a sua voz.
As pessoas são inteiras, mas mesmo nesta inteireza ajudam-se mutuamente, sozinhas não se bastam. O outro não completa o q falta em mim, mas preenche-me de sua diversidade sendo assim, sempre posso oferecer algo de mim para ajudar o outro a ser mais. Mas não posso forçar a minha entrada na vida de quem quer que seja, não tenho esse direito, não posso invadir, peço licença. Mas se entro procuro torná-la mais humana e consequentemente mais divina. É a falta que ama. O amor na incompletude da ausência.
Certo filósofo tentando compreender o que seria o tempo concluiu que ele é a tardança daquilo que se espera. Esperar o que tarda é saborear previamente um tempo de paciência. Ao longo de minha história compreendi que a paciência não é a arte de esperar, prefiro pensar como diz Ignácio Larrañaga, escritor espanhol, que diz que “a paciência é a arte de saber, porque o que se sabe se espera”. Então concluo que tenho que consentir em acreditar nas certezas daquilo que sei e que ansiosamente espero encontrar, daí encontrar resulta em buscar. Buscar é percorrer estradas às vezes longínquas, é um distanciar-se sempre num encontrar constantemente. O que procuramos sempre foge e quando encontramos o que procuramos não temos o direito de reter nada, tudo escapa nada fica, Assim é a transitoriedade da vida. Mas se ficou é porque soube marcar. E como é bom passar na vida de outrem e saber que deixei algo de bom. Não tenho o direito de após ter recebido a devida licença de entrar na vida de quem quer que seja e fazer desta menos vida, eu quero entrar para torná-la mais humana e mais divina, porque sei que a vida humana é perpassada pelo divino. Não posso alterar o passado de ninguém e nem impor ao outro de deixar de ser quem foi, só quero que se lembrando de quem foi, assuma a vontade de não se enojar ou se envergonhar mas tomar o passado nas mão com cuidado para reconstruí-lo. Não posso ser sem me esquecer do que fui. O passado conta muito e nos mostra caminhos para nos enveredarmos em rotas melhores.

Com carinho,
Luciano Medrado.

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