CASINHA BRANCA


A vida é feita de intervalos e a cada intervalo é entrecruzado pelo tempo. Cada espaço de tempo é preenchido por incertezas que geram dúvidas. Mas as incertezas e as dúvidas são necessárias. Eu gosto da dúvida (mas não das incertezas), ela [a dúvida] nos faz questionar acerca da vida e das nossas escolhas frente a mesma. O ser humano por mais que possa ser a todo instante forçado, coagido às exigêngias do real, tem o direito de protestar. O ser humano é um ser de protesto, não pode se deixar encurralar por nenhum conceito vil vindo de fora, conceitos de terceiros que nos julgam temerariamente, tentando no encaixar em seus esquemas mesquinhos, hipócritas e muitas vezes puritanos. Então me pergunto: Quem te deu o direito de julgar a mim que sou feito da mesma natureza que a tua?
A vida humana deve ser sempre pautada pela liberdade, adicionada pela racionalidade no livre arbítrio das escolhas cotidianas. E livre arbítrio é escolher entre uma realidade e outra, é fazer escolhas e cada escolha feita é partejada das suas consequências. E eu tenho que está prontamente maduro para compreender estas consequências e repará-las quando possível. Se não for, pelo menos que eu aprenda grandes lições com elas.

É preciso saber aproveitar cada oportunidade que a vida nos oferece com respeito e responsabilidade como quem toma um livro muito antigo mas precioso de biblioteca, para com o máximo de cuidado restaurá-lo para que o mesmo resignifique a história contida em si. A vida humana é feita de encontros e cada encontro deve ser um momento fecundo, porque cada encontro é revelação, é a mais certa experiência do espelhamento, "eu no outro" mas totalmente diferente dele. Por isso, compreendo que cada história de vida deve ser acolhida na sacralidade que lhe é própria. Porque é encontro, e cada encontro, é revelador. Eu sinto ser esta a razão de hoje termos tão poucos amigos, porque poucos querem se encontrar, poucos querem ser verdadeiros. Então vamos nos ilosolando cada vez mais nas mais diversas amizades virtuais em rede. Amizades sem rosto, amizades sem sentimento, sem toque, sem amabilidade, sem Philia. Amizade sem identidade. Assim eu me sinto.

Às vezes eu estou só, e mergulho em pensamentos. Profundamente então me emociono, deliro e não me explico. Às vezes estou só, e compilo o tempo, e busco abraços, e choro, e grito, e me arrependo. Às vezes só, me acabo homem e me alcanço menino. Às vezes perfeitamente só, e tão somente vivo. Concordo com Nietzsche quando o mesmo diz que quando nos ausentamos dos demais e nos recolhemos em nós mesmos nos compreendemos melhor. Mas por um lado também discordo porque que é triste ser um ser humano sozinho, desprovido de presenças que resignifiquem a sua existência, de presenças que saibam elevar o outro a sua máxima condição de dignidade, presenças que acariciam, que tocam e que nos fazem felizes. Onde encontrar?

Tudo isso me faz lembrar uma música muito antiga de autoria de Gilson e Joram que eu não os conheço, mas entitulada "Casinha Branca", posto aqui na íntegra esta canção como uma forma de expressar o meu sentimento de então.

Eu tenho andado tão sozinho ultimamente que nem vejo à minha frente nada que me dê prazer...

Sinto cada vez mais longe a felicidade vendo em minha mocidade tanto sonho perecer.

Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colherter, ter uma casinha branca de varanda um quintal e uma janela só pra ver o sol nascer.

Às vezes saio a caminhar pela cidade, à procura de amizade vou seguindo a multidão mas eu me retraio olhando em cada rosto, cada um tem seu mistério seu sofrer, sua ilusão.

Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colher ter uma casinha branca de varanda um quintal e uma janela só pra ver o sol nascer.

Com carinho,

Luciano Medrado.

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