Ao Deus desconhecido – Friedrich Nietzsch




A Oração ao Deus Desconhecido

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para frente uma vez mais, elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.

A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.

Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:

"Ao Deus desconhecido”.

Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.

Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.

Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.

Eu quero Te conhecer, desconhecido.

Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.

Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer, quero servir só a Ti.


[Friedrich Nietzsche]


Quando os véus caírem, quando os céus se abrirem, quando o santuário do coração humano for deslacrado, quando o que é oculto for revelado, quando o que é sussurrado for um brado audível, quando o que é aparente der lugar ao que é patente, quando a Luz iluminar todas as trevas e todas as ignorâncias, e quando todo joio for joio e todo trigo for trigo — então, os homens, todos eles, todos nós, entenderemos como temos blasfemado contra o santo-dos-santos do coração humano; e, também, como a religião e sua moral de juízos e certezas, foi satanás na história, e, além disso, foi a principal responsável por afastar milhões, bilhões de homens e mulheres, da genuína experiência de Deus.

O “Deus” que para Nietzsche morreu foi o “Deus” que já nasceu morto: o “Deus” da religião.

Os sacrilégios, as blasfêmias, as irreverências, os confrontos, as acusações, por vezes o ódio ou o sarcasmo mais ferino que a lamina de uma navalha afiada o dia todo — e que são encontrados em Nietzsche, são todos próprios se deixarmos de lado Deus, e pensarmos apenas em “Deus”, “Igreja” e “Cristianismo”.

E mais: a oração de Nietzsche transcrita acima (tradução do Boff), é uma confissão de amor ao que Ama, e é a declaração de uma alma que, mesmo enlouquecida de desejo de verdade, sabe que Aquele que é, sabe quem ele é — apesar de todos os véus de linguagem que ‘aparentemente’ fizessem separação entre ele e Deus.

O “Deus” que Nietzsche quis matar tem que morrer mesmo!

Esse “Deus” das virtudes do judaísmo, do cristianismo e do islamismo é o grande promotor das guerras e das desarmonias vistas e vomitadas neste planeta moribundo, porém muito ocupado pelos “temas de mosquito” dos grupos fundamentalistas e monoteístas existentes na terra.

Esse “Deus” é a morte da terra. Esse “Deus” não é Deus. Esse “Deus” tem sido freqüentemente um diabo. Esse “Deus” tem que morrer.

Nele, que É; e que amou Nietzsche mesmo em sua maior loucura; pois, por que o supremo Louco não amaria um ser enlouquecido pela busca da Verdade de Deus, e que é loucura para os homens?



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